”Tirar Dilma não adianta nada”, diz FHC

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso disse que o impeachment de Dilma Rousseff não é uma saída para o país hoje, mas asseverou que “a continuidade dos acontecimentos” e os desdobramentos da crise vão desafiar as lideranças políticas “a sentir o momento”.

FHC falou sobre o cenário que cerca a administração da petista durante um debate promovido pelo instituto que leva seu nome, nesta segunda-feira (9), em São Paulo. Participaram da conversa o senador Aloysio Nunes (PSDB) e um economista. Trechos da fala de FHC foram antecipados pelo site do jornal “Valor Econômico”.

Por várias vezes, ao fazer paralelos com a situação atual, o ex-presidente recorreu à memória para narrar os momentos que antecederam a queda de Fernando Collor (PRB), em 1992.

“Fui o último a assinar [o pedido de impeachment]. Eu usava uma frase que uso até hoje: impeachment é uma bomba atômica. É pra dissuadir, não pra jogar”, narrou.

“Mas nós jogamos a bomba. No começo não queríamos levar àquele ponto, mas tivemos que chegar (…). Quer dizer, o processo [político] muda as posições da pessoas”, concluiu.

Aloysio Nunes destacou duas diferenças entre os dois períodos: “Collor estava completamente esvaziado”, disse. “E segundo: já havia uma conjugação de forças prontas para o revezamento. O sr. [FHC] já era uma figura chave no segundo governo.”

Logo depois, o senador disse que “hoje, essas condições não estão dadas”. FHC afirmou que, nas condições atuais, “tirar a presidente não adianta nada”. “Vai fazer o quê depois?”, indagou.

O ex-presidente ressaltou que, apesar de não ver o impeachment como saída hoje, “também não pode deixar simplesmente que a sociedade avance sozinha”. “Ela vai necessitar que algumas vozes políticas expressem seus sentimentos”.

‘LEVY É TECNOCRATA’

Para FHC, as bases política e econômica do governo estão “espatifadas”, o que engrossa o caldo de insatisfação social e o clima de imprevisibilidade sobre o futuro do governo Dilma.

“É tão complicada a situação que é imprevisível. Mas a opinião pública vai ter peso. A desvalorização simultânea do sistema econômico e do sistema político faz com que as pessoas façam isso, bater panela”, afirmou, em referência ao panelaço que ocorreu em diversas capitais neste domingo (8) durante um pronunciamento de Dilma.

FHC afirmou ainda que não vê interlocutores qualificados para resolver o impasse entre a presidente e sua base no Congresso Nacional. Para ele, o ministro Joaquim Levy será incapaz de promover o ajuste fiscal.

“O ministro Levy é um técnico, não é um político, não vai fazer isso. Eu ia pro Congresso, ministro da Fazenda, mas era senador. Tinha autoridade moral pra enfrentar o debate. Quero ver um tecnocrata enfrentar o Congresso. Não enfrenta”, sentenciou.

Apontando caminhos, Aloysio disse que a oposição precisa trabalhar para oferecer propostas aos “órfãos” do governo Dilma.

Para emplacar uma reforma política, por exemplo, pregou uma aproximação progressiva com o PMDB, cujos representantes na Câmara e no Senado, hoje, vivem em conflito com a petista.

Aloysio disse que o impeachment não está “no programa” do PSDB e que quer ver Dilma “sangrar” até o fim do governo. “Seria tenebroso”, respondeu FHC.

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