Sayonara: a modelo que virou Miss Pernambuco

Sayonara Veras tem 22 anos e acaba de ser eleita Miss Pernambuco, na 60ª edição do concurso, realizado domingo passado, na capital do Estado que ela vai representar no Miss Brasil. Houve um dia em que ela própria tinha preconceito contra o papel que hoje assume. Modelos acham que não tem nada a ver ser miss, que misses são aquelas moças que andam montadas o tempo todo – cabelão, trajes impecáveis, salto alto – e modelos, no espectro oposto, apenas encarnam o papel de posar quando estão na passarela, numa sessão de fotos ou na gravação de algum comercial. É código de vestuário, entre as que modelam, a simplicidade levada a extremos. Basta ficar na porta do camarim de qualquer desfile de moda, dos grandes aos pequenos, para vê-las saírem, uma a uma, de cara lavada, sandálias rasteirinhas, jeans surrados e camiseta básica. É como se elas quisessem – fizessem questão – de pontuar a diferença entre as duas personas, o conteúdo (aquilo que carregam dentro de si) e a forma (a maneira como se metamorfoseiam ao bel-prazer do designer, do stylist, do maquiador).

Sayonara conhece bem um dos lados e está prestes a descobrir os meandros do outro porque, antes do cetro e da coroa que hoje carrega, ganhou o mundo, aos 16 anos, para trabalhar profissionalmente como modelo. No seu currículo, moradia em 11 países em períodos que duraram de 2 a 9 meses, e que fizeram dela uma mulher de 22 anos muito mais experiente e madura do que nossas filhas que viveram uma adolescência mais “normal”: indo e voltando do colégio, se preparando para a faculdade, assistindo aos filmes da tarde na TV.
Se formos acreditar que o nome de batismo escolhido por nossos pais têm uma cota de responsabilidade sobre nosso destino, então, o nome Sayonara – que em japonês significa “adeus” – deu uma forcinha para que a menina-moça, aos 16 pra 17 anos, saísse de Jardim Brasil II, bairro olindense, direto para Mumbai, na Índia. Não sem antes terminar o terceiro ano do ensino fundamental e passar em dois vestibulares ao mesmo tempo: nos cursos de design, da UFPE, e de administração, na UPE/Caruaru.

A mãe escolheu Sayonara, o nome, depois que assistiu a um filme com este título. A produção, diga-se de passagem, de 1957, que trazia elenco encabeçado por Marlon Brandon, foi contemplada com quatro Oscars. A trama é puxada pela trajetória de um piloto norte-americano durante a Guerra da Coreia e aborda a força insidiosa dos preconceitos, nominalmente racismo e sexismo. A Coreia, aliás, está naquela lista de países visitados/morados por Sayonara Veras. Ainda sobre o nome, ele gerava bastante confusão quando a jovem modelo, em contato com clientes japoneses, se apresentava: “Muito prazer, Sayonara”. Frase que os nipônicos entendiam como: “Muito prazer, adeus”. “Eles ficavam achando que era alguma brincadeira de mau gosto”, diverte-se, hoje, a Miss Pernambuco.

Antes da jornada internacional, que ocuparia sua vida por mais de quatro anos, Sayonara já mostrava desenvoltura para a exposição ao olhar do público. Aos cinco anos de idade fazia teste para comerciais e aos 12 procurou sua primeira agência de modelos, a Elizabeth Pontes, onde foi aconselhada a esperar mais um pouquinho. Depois de morar um ano em Brasília, de onde voltou aos 14 anos, candidatou-se ao título de Rainha do Carnaval, mas não rolou. Diagnóstico: muito magrinha para os seus 1,76m de altura. Dessa vez, foi aceita pela mesma agência, que construiu para ela uma ponte com agência na Índia. Viagem sem prazo para volta, como ficaria provado. Ainda tentou não perder as vagas recém-conquistadas nas faculdades: trancou, esgotou as possibilidades de falta, enfim, ficou de fora.

Galeria de imagens

Legenda
Anteriores

Próximas


Aproveitou para aprender na prática. Ao desembarcar em Mumbai, não conseguia se comunicar com o pouco que sabia de inglês. Quando deixou a cidade indiana, seis meses depois, já possuía fluência no idioma estrangeiro, a ponto de ter emplacado participação num programa para a MTV e participado de vários desfiles, campanhas e comerciais. “Foi o período em que mais aprendi. Absorvia tudo. Sempre fui muito observadora, de modo que prestava atenção na pronúncia das pessoas para poder imitar”, descreve. O choque cultural, que abala muitas meninas, fazendo com que elas queiram voltar ao país de origem, foi um poderoso estimulante. Aprendeu também a se defender, “saindo pelas beiradas”. O dono da agência que contratava as modelos não raras vezes queria levar o assunto para o lado pessoal. Algumas topavam, ela aproveitava a suposta dificuldade de comunicação para fingir que não entendia o que ele estava propondo.

Na Coreia, sua segunda parada, onde ficou durante três meses, percebeu que o segmento profissional que havia abraçado podia ser muito cruel e, se a menina não tomasse cuidado, projetaria sobre ela um nível absurdo de rejeição. “Lá, as morenas estão em desvantagem porque a procura maior é por modelos de cabelos louros, pele pálida e jeito de boneca de porcelana”, conformou-se. Viu também que vida de modelo seria sempre assim: seguindo para onde houvesse trabalho; dividindo apartamentos com várias colegas de uma vez, mal tendo tempo de criar vínculos de amizade porque a rotatividade é grande; tentando preservar a autonomia e a harmonia num ambiente, por definição, carregado de rivalidade, privação de comida, dinheiro curto no bolso e obrigação de ser linda.

Tailândia (6 meses), Cingapura (2), Hong Kong (2) e Filipinas (6) conquistaram seu coração, especialmente este último país, que ela chama de “a América Latina da Ásia”. Lá, até arrebanhou papel – falando em tagalo, idioma local – em uma telenovela, cujo título era Eu Te Amo e na qual ela fazia o papel de Hideo, uma mocinha apaixonada pelo galã-casanova, que a trocava por outra.

Depois de um pit stop na África do Sul (2 meses), Paris marcou sua vida para sempre, e não de um modo positivo. Na capital mundial da moda, seus 52 quilos eram considerados excessivos e a pressão para emagrecer era grande. Sofreu o efeito rebote: engordou sete quilos numa mistura de emoções fora de controle e chocolate barato. Submetia-se a dietas draconianas sem carboidratos, levantava de manhã sentindo que ia desfalecer de fraqueza. Os parisienses, diz ela, não contribuíram com a mesma simpatia e acolhimento que ela garante ter recebido dos asiáticos. Para equilibrar um pouco as contas, conseguiu um comercial muito bem pago pela Tresemmé, marca de produtos para cabelos. E au revoir, France, para nunca mais.

Na Turquia, onde viveu longos 9 meses, voltou a atuar em novela, falando em turco, língua em que ganhou fluência. Vivia uma “periguete” que se vestia com shortinhos e blusa amarrada na cintura e trabalhava num lava-jato. Detalhe: a personagem não existia na trama propriamente dita, mas fazia parte da fantasia que o dono do tal lava-jato nutria para escapar da rotina enfadonha com a esposa. Preconceito e estereótipo mais uma vez em ação.

Passou ainda por Milão e Atenas antes de retornar ao Brasil, em 2013. Veio para acompanhar a avó que caiu doente, mas se recuperou (“Amém”, murmura ela). Já chegou convencida: “Modelo, nunca mais”. Novo vestibular e agora ela cursa administração, desta vez na Unicap. Quis ser miss para ganhar visibilidade, fazer contatos, abrir caminhos. Porque o sonho maior é ser empreendedora, abrir uma loja com a mãe, na qual, juntas, venderiam artigos de Carnaval: adereços, fantasias, customização, enfim, tudo o que dá alegria. Ela aprendeu que isso, sim, é artigo de luxo.

Comentários