Professor entra em sala e se emociona ao ver 50 alunos com camisa do Santa Cruz

“A aula era de 9h20 às 11h40. Teve prova no primeiro horário e acabei indo para a sala dos professores. Quando deu a hora de voltar, fui à coordenação pegar as provas. Geralmente os alunos ficam no “hall”, mas dessa vez eles não estavam. Quando entrei na sala de aula, a surpresa. Aqueles gritos, os alunos levantando as mãos! Todos com a camisa do Santa (Cruz)! Meus olhos logo encheram de lágrimas. Mas eu segurei porque eu sou ‘cabra macho'”.

Damião Soares Tenório, pernambucano de 33 anos e torcedor fervoroso do Santa Cruz, teve um dia inesquecível na última segunda-feira (8). Era o último dia de aula na faculdade de Direito onde ele dá aula, em Fortaleza, e os alunos resolveram fazer uma surpresa para o professor vestindo a camisa do time de coração do docente. Nesse caso, não Ceará ou Fortaleza – mas, sim, o Santa Cruz. Isso mesmo: em terras alencarinas, o time coral prevaleceu e “tricoloriu” o último dia de aula do professor Damião.

Na ocasião, não houve abstenções. Todos os 50 alunos estavam presentes e devidamente uniformizados. Eles se reuniram e conseguiram até patrocínio para dividir o custo de 51 camisas corais (uma para o professor, obviamente).

– Parecia um estádio de futebol só com torcedores do Santa Cruz – comparou o docente.

Mesmo comparando com o Arruda lotado, Damião garante que a emoção foi muito maior. Ao lembrar dos inúmeros jogos que acompanhou do time pernambucano com 40 ou até 50 mil pessoas enchendo o estádio nos jogos da Terceira Divisão, o fanático crava que nunca passou por nada parecido.

– Já vivi muitas emoções assistindo aos jogos do Santa porque é sofrido. É drama. É inexplicável. Mas essa surpresa que fizeram para mim foi fora do normal. Essa demonstração de carinho dos alunos foi incrível. Até eles ficaram emocionados.

A surpresa

Damião relata que a surpresa maior foi porque aconteceu em solo cearense. Em terras comandadas por Ceará e Fortaleza, o Santa Cruz mostrou que tem poder. Também pudera. Sempre que pode, o professor insere o conteúdo “Santa Cruz” em suas aulas. A rivalidade com o Sport, claro, não é deixada de lado.

– Até brinquei com os meus amigos do Recife. Só teve a surpresa porque foi com o próprio Santa Cruz, que é time do povo. Se fosse o Sport ninguém ia fazer isso, porque o Sport já cria essa antipatia com as pessoas. Já o Santa, não. Ao Santa todo mundo quer bem – brincou.

Ao ver os alunos de frente, mal sabia Damião que ainda havia um pequeno detalhe no uniforme coral que faria o professor se segurar mais ainda para não chorar na frente dos pupilos.

– O que me deixou mais extasiado foi perceber ao deixar a prova com cada aluno que nas costas tinha o meu nome gravado junto ao número 10. Aí lascou. Fiquei mais arrepiado ainda.

A surpresa foi organizada por toda a turma. Uma das alunas, Maria do Perpétuo Socorro, de 53 anos, explica que a homenagem só ocorreu por conta das brincadeiras do professor com o clube pernambucano. A dificuldade em encontrar camisas do Santa Cruz foi decisiva para que os estudantes corressem atrás de patrocínio e encomendassem a quantidade necessária de uniformes. Depois de todo esse esforço, o clube coral certamente conseguiu mais alguns adeptos.

– Não resta dúvidas de que todos nós viramos um pouco torcedores. Não só pelo que ele fala, mas porque isso acaba puxando o interesse dos demais. Pesquisei coisas sobre o Santa Cruz. Já sei bastante até sobre a história do time – garantiu.

Essa não foi a primeira vez que o professor recebeu uma homenagem coral. Há alguns semestres, Damião foi surpreendido ao ser presenteado com uma imensa barca com o escudo e as cores do Santa Cruz.

– Os alunos contrataram um ex-presidiário que se ressocializou e faz esse tipo de trabalho artesanal. Daí quando eu menos esperei, entrou na sala um pai de aluno com a barca. Eu me emocionei muito nesse dia. Tive até que contratar um carro maior para poder levar a barca para casa.

Ser ou não ser Santa, eis a questão

A paixão do professor pelo Santa Cruz é proporcional à rivalidade com o Sport. Não bastasse tirar sarro com os conterrâneos que estão longe, a birra se estende até os alunos. O amor pelo clube coral é flagrante. Por isso, torcedor do Leão da Ilha que fizer uma disciplina com o professor coral deve ter cuidado redobrado.

– No semestre passado, tive um aluno que era torcedor do Sport. O resto da turma, lógico, dedurou. Nunca pensei que fosse sair de Pernambuco para encontrar um torcedor do Sport em Fortaleza! E que ainda fosse meu aluno! Falei logo para ele que, se quisesse passar na disciplina, mudasse de horário. Mas o cara era tão inteligente que nem que eu quisesse poderia reprová-lo. Mas pelo menos ele nunca teve a coragem de usar uma camisa do Sport em sala de aula – relembrou, entre risos.

Se torcer pelo rival pode atrapalhar a vida acadêmica do estudante, saber um pouco da história do clube coral pode ser benéfico.

– Há dois ou três semestres, fiz uma prova oral que ninguém nunca tinha feito. Fui indagar uma aluna, em chamada individual. Buscava alguma pergunta bem complicada. Perguntei se ela estava preparada, mas ela se antecipou e falou: “Professor, estou preparada, mas antes eu preciso dizer que o Santa Cruz foi fundado no dia 3 de fevereiro de 1914”.

Foi o suficiente para desarmar o catedrático tricolor.

– Fiquei sem palavras. Arrepiado. Não conseguia mais pensar em uma pergunta difícil para fazer para ela – relembrou, às gargalhadas.

Torcedor do Santa e cearense!

Além de professor, Damião advoga e é procurador geral do Estado do Ceará. Natural de Bom Conselho, município distante 282 quilômetros de Recife, o catedrático mora em Fortaleza há cinco anos. Quando se graduou, passou em um concurso público, mudou-se para a Terra da Luz e não pretende mais ir embora.

O procurador participa de uma torcida organizada, a “800km de paixão”. Nome sugestivo. Vários pernambucanos radicados em Fortaleza que não pretendem mais voltar à terra natal formaram o grupo para acompanhar os jogos do time de coração na capital cearense.

Professor da mesma turma por pelo menos dois semestres em sequência, Damião explica que as amizades construídas em Fortaleza são o que o fazem querer ficar e sempre ter saudades do Ceará quando viaja a Pernambuco.

– Fortaleza é uma cidade fantástica, tem pessoas fenomenais. Minha mãe pede para que eu passe em um concurso público para voltar a Pernambuco, mas digo para ela que eu só saio daqui em um caixão e depois de muito tempo – afirmou.

Damião saiu de Pernambuco, mas o Santa representa um latifúndio que o “arretado” torcedor coral carrega consigo aonde for. O amor pelo clube é tamanho que, por vezes, a disciplina de Direito Processual Civil fica em uma segunda esfera.

– Em sala de aula eu sempre exalto a figura do Santa Cruz. Costumo dizer que mais importante do que estudar a minha disciplina é entender a história do clube. Saí de Pernambuco, mas o Santa não saiu de mim – disse.

O relacionamento com os alunos é horizontal, como bem gosta de apontar Damião.

– Sempre entro em sala de aula para construir amizades. Eu me considero um professor humilde. Costumo dizer que as amizades que fiz aqui cresceram em progressão geométrica – afirmou.

Após a surpresa da classe, Damião irá estampar a revista da faculdade. Perseverança e força de vontade estão no vocabulário do procurador que já passou em concursos públicos para outros estados, mas prefere ficar em solo alencarino. No entanto, o real sonho de consumo do pernambucano é se tornar um cearense de fato e direito.

– Meu objetivo é conseguir o título de cidadão cearense. Só nasci em Pernambuco, mas o coração mesmo é daqui – finalizou.

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