Pernambucanos apostam em ideias sustentáveis para economizar água

Os brasileiros nunca se preocuparam tanto em poupar água quanto neste Dia Mundial da Água, celebrado neste domingo, 22 de março. Em uma época de chuvas escassas, barragens vazias e racionamento, economizar virou lei. A água que antes era utilizada em um dia agora precisa ser suficiente para dois. Em algumas localidades, esse cálculo é ainda pior. As 48 horas de racionamento se estendem por três, quatro e até sete dias. Por isso, cada um faz o que pode para viver com o que chega às torneiras. Em Pernambuco, muitos ainda recorrem aos tradicionais baldes e cisternas, mas também há quem invista na criatividade e na tecnologia para fazer a água render. A preocupação se encaixa perfeitamente no tema que a Organização das Nações Unidas (ONU) definiu para o Dia da Água deste ano: desenvolvimento sustentável.

Cada vez mais pernambucanos investem em técnicas de reutilização e economia de água, seja nas residências ou estabelecimentos comerciais. Afinal, hoje há alternativas para todos os bolsos e disposições. Desde opções simples, como a instalação de válvulas que reduzem a pressão das torneiras; até as mais elaboradas, como a captação das águas da chuva. “Economizar é reduzir a demanda e há muitas técnicas disponíveis no mercado para isso, de uma simples válvula de descarga até coisa mais sofisticada”, reconhece a professora de engenharia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Suzana Montenegro, lembrando que a preocupação não deve se extinguir ao final do período crítico de estiagem.

“A gente está passando por um período de reservatórios com baixa acumulação. Nesta época, a necessidade de poupar é muito gritante. Mas a economia não deve ser só agora. A gente precisa de alternativas duradouras, porque a situação de Pernambuco é, historicamente, difícil”, alerta. Pesquisas da Agência Nacional de Águas (ANA) de 2013 confirmam que a disponibilidade de água na Região Metropolitana do Recife é considerada muito crítica. No interior, a situação não é diferente. “Em 1999, o estado de Pernambuco era o mais pobre da federação em disponibilidade de água. Eram menos de 1.320 litros por habitante por ano, o que já era considerado uma situação crítica”, recorda Suzana.

A casa da bióloga Maria Adélia Oliveira, no Sítio dos Pintos, Zona Oeste do Recife, é um dos maiores exemplos de que não há mais desculpa para deixar de poupar água. Planejado com calma, para ficar do jeito que a dona desejava, o imóvel foi entregue no final do ano passado com um poço, duas cisternas e um sistema de captação das águas da chuva. “A questão ambiental sempre me preocupou e a questão da água é fundamental, pois tudo que tem vida tem água. Precisamos conservar a água para conservar a vida”, diz Adélia. Na casa dela, uma das cisternas recebe a água do poço e a outra, que tem o dobro da capacidade da primeira, a água da chuva coletada pelas calhas do telhado. “A água da chuva é de boa qualidade. Faço análises periódicas para monitorar. Por isso, uso essa água para tudo. Só uso a do poço quando não há mais água da chuva disponível”, conta. Dessa forma, garante o abastecimento durante oito meses do ano apenas com o que cai do céu.

A economia é grande, e os custos para a instalação do sistema podem ser bem baixos para quem já tem uma casa e pensa em aderir à ideia, garante a engenheira Marília Bechara. “Os telhados das casas normalmente já vêm com calhas, então você só precisa da tubulação para ligar as calhas ao reservatório. E essa água pode ser guardada em reservatórios mais simples, como uma bombona, que parece um balde grande. Só não pode deixá-la parada por muito tempo para não apodrecer [e dar origem a focos de dengue]”, alerta. A engenheira recomenda que essa água seja utilizada na lavagem de carros ou do quintal, mas lembra que também é possível tratá-la para abastecer a residência. “O tratamento mais simples é o de cloro. Basta ver a quantidade adequada e colocar uma dosagem no reservatório”, diz.

Mas as ideias sustentáveis de Adélia não param por aí. Ela quer instalar um telhado verde, que vai servir de filtro natural para a água da chuva coletada; e ainda reutilizar o que vai para o ralo das torneiras nos banheiros. A ideia é que essa água passe por um filtro e vá para a cisterna que já recebe a água da chuva, para voltar a ser utilizada. A analista Tatiana Lucas, que mora em Casa Forte, também quer fazer algo semelhante. No apartamento dela, o plano é direcionar a água utilizada na torneira diretamente para as instalações sanitárias. Enquanto a obra é projetada, é o que resta da lavagem da máquina de roupas que vai para as descargas. O resíduo ainda é utilizado na limpeza do chão. “É bom porque já está com sabão, então economizamos duas vezes”, pontua Tatiana. A analista ainda colocou um arejador na torneira da cozinha — o dispositivo é semelhante a uma peneira e reduz em até 40% o fluxo de água.

Além disso, Tatiana toma cuidados simples nas atividades cotidianas para garantir a economia. “Faço o básico: enquanto escovo os dentes, me ensaboo ou lava os pratos, fecho a torneira; vejo se há vazamentos na tubulação; fecho os registros quando viajo; junto bastante roupa para lavar de uma vez; e não uso a mangueira para lavar o chão ou o carro, apenas baldes de água”, conta. A preocupação tornou-se tão natural que ela já nem sente mais. Os familiares e os funcionários do edifício também incorporaram os cuidados ao dia a dia. “É uma mudança de postura, depois que você se acostuma não tem mais trabalho. E isso é muito bom, porque não abrange apenas uma questão de dinheiro. Se pararmos para pensar na quantidade de água que utilizamos no dia a dia, percebemos que não temos uma relação harmoniosa com os recursos naturais. A gente desperdiça água, comida, energia; tira tudo o que o planeta tem e usa a nosso favor, mas não devolve quase nada”, lamenta Tatiana.

Comércio
A necessidade de economia também já faz parte até do planejamento de grandes estabelecimentos comerciais. A Arena Pernambuco, em São Lourenço da Mata, por exemplo, reutiliza água para diminuir a conta. Tudo o que sobra da irrigação do gramado é tratado para voltar à tubulação. A água da chuva também vai para os tanques de tratamento. Ao todo, 50 mil litros são tratados por dia. A cada mês, 2.200 m³ deixam de ir ao esgoto e voltam às tubulações do empreendimento. Tudo isso é tratado em enormes tanques, abaixo das arquibancadas, onde a água também recebe uma coloração azul. “A coloração é para que os torcedores consigam distinguir que é uma agua de reuso. Afinal, essa água é imprópria para o consumo humano e só pode ser utilizada para fins menos nobres”, explica a engenheira do estádio, Marília Bechara. Por isso, a água reutilizada vai apenas para as descargas e a irrigação do gramado. Parece pouco, mas a economia é grande. “Representa 70% do consumo mensal. Só o gramado precisa de 1,5 mil metros cúbicos para ser irrigado por dia”, conta Marília.

Em Fernando de Noronha, a pousada de Zé Maria também dá o exemplo no quesito economia. Além de contar com uma estação de tratamento de esgoto, o estabelecimento tem várias placas de captação de água da chuva, que é tratada na própria pousada para ser empregada nos banheiros. Por dia, cerca de 20 mil litros de água são reaproveitados. “Nós temos dificuldade em encontrar água e isso ajuda a resolver nosso problema”, diz Zé Maria, que também instalou sistemas de aquecimento solar e coleta seletiva na pousada, além de uma horta própria. A professora Suzana Montenegro apoia a ideia da agricultura hidropônica e lembra que agricultores tradicionais podem adotar técnicas semelhantes colocando mangueiras com furos diretamente nas raízes da planta. “E isso é muito importante. Nós cobramos muito dos consumidores, mas é a agricultura que consome mais água no Brasil ultimamente — 63% do total”, diz Montenegro, que também gostaria de ver técnicas de economia nas indústrias.

A horta de Zé Maria é, por sinal, um dos empreendimentos agrícolas mais sustentáveis de Pernambuco. Utilizando a técnica da hidroponia, o empresário economiza até 80% da água que seria necessária no cultivo tradicional de hortaliças como alface, agrião e cheiro verde. Na hidroponia, as mudas são plantadas em canaletas que recebem o fluxo necessário de água misturada a sais minerais para o desenvolvimento das folhosas. Este líquido fica em constante movimento, sendo reaproveitado e garantindo, assim, um rendimento até 40% maior que o de uma plantação comum. “É quase autossuficiente, a gente só fiscaliza e faz as correções. Preciso até de menos funcionários”, conta o dono do empreendimento. Com cerca de 300 litros por dia, Zé Maria produz até oito mil folhosas por mês. A produção é tão grande que já abastece quase todo o arquipélago. “Mas não é tanto uma questão financeira, é mais uma questão de consciência ambiental, porque a gente tem que pensar nos outros e no futuro dos nossos descendentes. Faz parte da nossa filosofia ser autossustentável”, sentencia o empreendedor.

 

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