Perito não encontra provas de que policial usou coquetel molotov

Após passar horas analisando imagens e vídeos de confrontos da manifestação da noite de segunda-feira em Laranjeiras, o perito forense Maurício de Cunto disse não ter encontrado elementos para assegurar que o homem flagrado lançando um coquetel molotov contra PMs seja o mesmo que, minutos depois, aparece num grupo de policiais. As imagens ganharam espaço nas redes sociais, alimentando uma acalorada discussão, com o suspeito chegando a ser apontado como um suposto policial infiltrado. O tema foi abordado nesta quarta-feira numa reportagem do “New York Times” como uma guerra de imagens.

Para Maurício, as imagens têm qualidade ruim e não permitem a identificação de traços do rosto do homem que lança o artefato e é apontado como estopim do conflito:

— Com base no estudo dos vídeos e das imagens capturadas, não encontrei elementos que afirmem positivamente que as camisetas comparadas sejam a mesma. Não há como afirmar que os dois sujeitos sejam a mesma pessoa, pela qualidade ruim do vídeo feito pela Policia Militar, diante das condições desfavoráveis de iluminação e mobilidade de quem capturou as imagens. Além disso, o sujeito que lança o coquetel molotov está com o rosto totalmente encoberto. Se os sujeitos não trocaram de camiseta, é muito provável que não sejam a mesma pessoa.

Grupo investigará denúncia

O perito forense ressalta ainda que a estampa na camisa do homem que, num dos vídeos, está entre os policiais é diferente e não apresenta as características refletivas constatadas na da camisa da pessoa que jogou a bomba artesanal nos PMs.

Análise à parte, o promotor de Justiça Paulo Roberto Mello Cunha Júnior, que atua na Auditoria Militar e integra a recém-criada Comissão Especial de Investigação de Atos de Vandalismo em Manifestações Públicas (CEIV), disse que a suposta participação de policiais infiltrados em badernas durante as manifestações serão apuradas pelo grupo. Ele ressaltou que a CEIV não vai desrespeitar qualquer norma legal ou quebrar sigilos sem autorização da Justiça:

— A comissão não é um tribunal de exceção. Estamos analisando imagens de diversas fontes para tentar identificar as pessoas envolvidas em vandalismo. Entre elas, a do homem que estão dizendo, nas redes sociais, ser um policial infiltrado.

Já a PM, por meio de sua conta no Twitter, disse que os policiais descaracterizados que aparecem nas imagens da manifestação não são autores do ataque à tropa. O texto no microblog acrescenta: “É uma hipótese absurda imaginar que um policial possa cometer um ato bárbaro contra um companheiro de farda”.

Para o assessor de direitos humanos da Anistia Internacional, o cientista político Maurício Santoro, há indícios de que policiais à paisana se misturam aos manifestantes com o objetivo de desestabilizar as passeatas, justificando a reação da PM.

Rapaz preso não tinha bomba

Um outro caso ocorrido durante a manifestação de segunda-feira ganhou destaque ontem. O depoimento de um dos policiais que prenderam Bruno Ferreira Teles, de 25 anos, contradiz o que as polícias Militar e Civil vinham dizendo sobre o manifestante, como mostrou o “Jornal Nacional”, da TV Globo. Acusado de atirar um coquetel molotov contra policiais, Bruno foi autuado por porte de artefato explosivo e desacato.

As duas polícias divulgaram que coquetéis molotov haviam sido apreendidos com o estudante, embora as tenham divergido sobre o número de explosivos. Já o policial que efetuou a prisão afirmou na delegacia que Bruno não tinha qualquer coquetel quando foi detido. Ele disse que um manifestante não identificado lançou a primeira bomba e, logo depois, outra foi acesa e entregue a Bruno, que a arremessou. O Ministério Público está analisando o processo sobre a prisão.

Na noite de segunda-feira, horas depois do início do tumulto durante a manifestação, a PM divulgou em seu Twitter oficial a informação de que 20 coquetéis molotov tinham sido apreendidos com um manifestante. Minutos depois, uma nova mensagem: duas pessoas tinham sido presas, uma com material explosivo e outra por desacato. Já a Polícia Civil disse que 11 coquetéis molotov haviam sido recolhidos e que Bruno era o único preso por portar artefato explosivo, tendo sido também acusado de desacato.

Bruno passou a madrugada na cadeia. Na manhã de terça-feira, advogados do rapaz conseguiram um habeas corpus e ele foi solto. Em entrevista ao grupo Mídia Ninja, o estudante negou o crime:

— Disseram que eu estava com uma garrafa de molotov. Eu não estava.

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/rio/perito-nao-encontra-provas-de-que-policial-usou-coquetel-molotov-9171697#ixzz2aGK4n1eU
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