O Recife em cinco sentidos

Em meio aos ruídos, visões e odores desagradáveis presentes em qualquer grande cidade, o Recife mantém deliciosos estímulos sensoriais nativos e característicos que resistem ao crescimento desordenado.

Esses estímulos se destacam na percepção de moradores e turistas. Frente ao domínio do fast food, o bolo de rolo apaixona quem o experimenta pela primeira vez. Já o aroma da fábrica da Pilar é um bálsamo para quem foge do mau cheiro dos canais e esgotos.

As sensações são capazes de transportar alguém para momentos já vividos. Foi isso que a vista do Rio Capibaribe a partir do Bairro do Recife fez com tantos poetas, como Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto e até o paraibano Augusto dos Anjos.

Quem sai do Recife também leva os sentidos na memória e os associa à cidade pela qual passou. A recifense Marja Calafange, por exemplo, mora em Curitiba há sete anos e não consegue esquecer os sabores tipicamente pernambucanos. “Aqui não se encontra queijo manteiga, por exemplo. Então quem vem passar un dias aqui na minha casa é ‘obrigado’ a trazer 1kg!”

Os estímulos estão em toda a cidade. Alguns atropelam quem passa por eles e arrebatam os seus sentidos. Não deixam mais nada ser notado. Outros são sutis e passam despercebidos caso não sejam procurados. Assim, mais do que um retrato da cidade, o Diario faz um convite ao leitor para perceber o Recife.

Olfato

Os aromas do mar, do mangue e do encontro dos dois não são os únicos da cidade. No Recife, fábricas marcam há décadas os bairros em que são localizadas pelo cheiro que exalam. Em Afogados, um aroma de café pode ser sentido na Avenida 21 de Abril. No Bairro do Recife, a fábrica de biscoitos, bolachas e massas exala um dos cheiros mais lembrados da cidade.

Tato

A experiência tátil mais associada ao Recife é o contato humano nas ruas do Centro durante o carnaval. “Cerveja, orquestra, energia positiva, felicidade e a descontração das fantasias fazem com que a gente adore o contato e o calor. E mais: ficamos querendo voltar de novo. Sem aperto não teria graça”, explicou o estudante Igor Mattos, 21.

Audição

Os sons mais característicos do Recife são reflexos de sua cultura musical. Quem anda pelo Recife Antigo nas sextas-feiras à noite, por exemplo, pode sentir o coração se afinando com o compasso do maracatu que ecoa por todo o bairro. “Os sons vêm principalmente de alfaias, caixas e gonguês, que são os instrumentos originais do ritmo. Mas também há o agbê e as timbas”, explica Bruno Uchôa, idealizador do Traga a Vasilha, encontro de vários maracatus.

As notas usadas para anunciação de reis e rainhas na Idade Média também se tornaram um som presente no imaginário pernambucano. Desde 1981, o desfile do Galo da Madrugada é aberto com clarins tocando essas notas. Em qualquer lugar, o recifense que ouvir a “clarinada”, lembrará do carnaval.

Paladar

Chefs locais renomados como Marcílio de Pádua, do restaurante Mocó, são categóricos quanto aos sabores do Recife: a cozinha da cidade é compartilhada com todo o estado. E os sabores são o resultado da mistura singular de receitas africanas, portuguesas e indígenas. Contudo, nada mais característico que os bolos e doces criados nos engenhos. Os bolos de rolo e Souza Leão são exemplos.

A cartola, patrimônio imaterial de Pernambuco, também. A maquiadora paulista Andréa Tristão, 39 nunca veio ao Recife, mas provou algumas vezes através da receita de uma amiga pernambucana. “Morro de vontade de comer uma cartola no Recife. Sinto saudade daquele sabor.”

Visão

As imagens mais conhecidas da capital pernambucana são encontradas no Centro e em Boa Viagem. Nos sites de pesquisa da internet, a vista das pontes recifenses a partir do prédio do Tribunal de Contas do Estado, na Rua da Aurora, no bairro de Santo Antônio inunda as telas de quem digita a palavra “Recife”. Ainda na área central, o Marco Zero, com seu conjunto arquitetônio ao redor e o Parque das Esculturas, em frente a ele, também estão entre as visões mais características da cidade. Altos como os da Bela Vista e o da Conceição oferecem panoramas menos lembrados, mas tão bonitos quanto as vistas mais famosas.

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