Ex-Legião, Dado faz ?exorcismo?, deixa o cigarro e chega aos 50 anos

Um dos mais novos da turma que colocou Brasília no mapa do rock nacional, nos anos 1980, Dado Villa-Lobos chega aos 50 anos nesta segunda-feira (29) colocando em prática uma série de projetos que vão além de sua vida na Legião Urbana. Um dos trabalhos é um livro de memórias feito como “quase um exorcismo” e lançado em maio, mês em que o músico parou de fumar.
 

O próprio Dado diz considerar a nova idade um “divisor de águas”. O meio século de vida chega no momento em que ele direciona a carreira para o lançamento de dois álbuns, um deles com a banda Panamericana, outro com a harpista Cristina Braga. O guitarrista também relança o selo Rock It, agora adaptado para o formato digital.

“Os 50 anos chegaram. É uma questão que tenho de lidar, que era tão distante, tão longe. E eu chego com a cabeça na adolescência, por essa coisa do livro, das lembranças, do sonho adolescente de ter uma banda. E hoje eu tenho um filho de 27 anos”, afirma o guitarrista.

O livro é “Dado Villa-Lobos — Memórias de um legionário”, que conta um pouco da trajetória do músico, principalmente nos tempos da Legião Urbana, mas que traz informações desde o nascimento em Bruxelas, na Bélgica, em 1965, passando por todos os lugares onde viveu, pelas amizades que construiu, pelo encontro com a mulher, Fernanda  Villa-Lobos, nos primeiros momentos de banda, e pela relação com Renato Russo.

“Faço terapia há dez anos. Foi muito bom juntar os cacos, o que fomos, o que fizemos, onde chegamos. Foi difícil juntar os cacos todos, mas [o livro]ficou de acordo, fez um bem. Foi quase um exorcismo, mas mostra uma história muito humana, da coisa que toma conta do país com a música, uma coisa extremamente popular, que veio do sonho adolescente e de repente acaba com uma tragédia, o que aconteceu com o Renato”, declara Dado.

“Uma amiga falou, em uma exposição em São Paulo: ‘você virou um arquivo’. É simplesmente impossível desvincular a minha história com a história da banda.”, afirmou o músico, que é sobrinho-neto do compositor Heitor Villa-Lobos.
 

“Memórias de um legionário” chega ao mercado pouco depois de a Justiça do Rio de Janeiro conceder a ele e ao baterista Marcelo Bonfá o direito de usar o nome Legião Urbana em suas atividades profissionais. “Isso [ação na Justiça], que acontece com qualquer artista do universo popular, era uma coisa que estava incomodando muito. Eu queria esquecer essa história.”

A “crise do meio século” é vista por ele como uma novidade. “Nos 40 eu não tive nada. Agora, nos 50, eu já começo a pensar.” Diabético, ele afirma que sempre manteve uma vida regrada. Hoje, se diz apaixonado por bicicleta e não quer fazer planos. “Quero viver pedalando.”

Mais do que o mesmo
O legionário Dado Villa-Lobos já está fora da banda que o projetou para o grande público há 19 anos. Antes mesmo da morte de Renato Russo, e do consequente fim do grupo, o guitarrista já se aventurava por outros caminhos.

Em quase duas décadas o músico já trabalhou com artistas como Fausto Fawcett, Paralamas do Sucesso e Plebe Rude, retomou a banda com o Reino Animal (que havia se apresentado apenas uma vez, junto com a Plebe Rude e o Aborto Elétrico, na UnB, em 1982), criou uma loja de discos, um selo independente e passou a receber músicos em seu estúdio para uma série em um canal de TV paga.

“No começo da década de 1990, quando eu criei a loja e o selo, já estava meio que ‘a Legião já tinha virado instituição’, tinha vida própria. Eu era parte daquilo, mas sabia que sobreviveria por conta própria. A gente pensava mais em preservar as nossas relações. Ali eu comecei a fazer minhas coisas, trabalhei com o Fausto Fawcett, no ‘Santa Clara Poltergeist’”, diz Dado.

O artista sempre esteve na ativa desde então, mesmo quando o grande público não teve conhecimento. E a ideia dele é usar a marca “Rock It” para continuar a produzir música. “Tenho um estúdio que tem vários instrumentos e amplificadores, e que precisam ser usados. Eu tenho crença na música. Agora mesmo estou com meus professores de ioga, com sete músicos, que estão gravando para uma peça [de teatro].” Outros músicos devem utilizar o estúdio para gravar e lançar trabalhos no mercado, segundo Dado.
 

O álbum com a banda Panamericana, formada também por Dé Palmeira (ex-baixista do Barão Vermelho), Charles Gavin (ex-baterista dos Titãs) e Toni Platão (ex-vocalista do Hojerizah), deve chegar ao mercado entre setembro e outubro, segundo o guitarrista. O trabalho com Cristina Braga será lançado pela Biscoito Fino.

Em casa
Dado nasceu na Bélgica, mora há 30 anos no Rio de Janeiro, mas tem seu nome ligado a Brasília. Foi na capital que o guitarrista viveu o “momento-chave” que definiu o que faria da vida, de acordo com ele mesmo. “Foi um período importante, na época de adolescente. Eu vivi momentos indescritíveis na minha formação, em relação à música, ao teatro. Teve toda a convivência. E Brasília é uma cidade sui generis.”

O músico chegou pela primeira vez ao Distrito Federal em 1971, onde viveu inicialmente até 1975. Depois disso, retornou à capital em 1979. Foi a partir de então que ele começou a criar a figura que se tornaria guitarrista de uma das mais populares bandas de rock do país.

“Amo Brasília. Ser criado em Brasília foi ótimo. Foi aí que tudo floresceu e se estabeleceu. De 1979 a 1985 é o período mais importante para mim. E tem todo o pacote. Era minha adolescência, o Brasil passava por um momento de transformação sociopolítico-econômica”, afirma.

“Eu me lembro do que foi para mim o dia em que fui ao Food’s (lanchonete que funcionava na 111 Sul, em frente ao Eixão, em Brasília, no início dos anos 1980), com uns 15, 16 anos, com o Dinho (vocalista do Capital Inicial), com o Aborto [Elétrico] tocando. Aquilo petrificou de um jeito, marcou, transformou de uma forma irreversível. Depois, vi outras bandas, o Gutje (baterista que tocou com a Plebe Rude), tropa de choque na rua. Aquilo foi muito impactante, naquela idade, naquele momento.”

Para o músico, mais do que colocar o Distrito Federal no cenário roqueiro no início dos anos 1980, a geração que deu ao mundo nomes como Legião Urbana, Capital Inicial e Plebe Rude ajudou a dar “uma cara” a Brasília. “A gente cresceu em uma cidade em busca de sua identidade. Certamente, claro, que a gente contribuiu para essa identidade.”

Apesar da identificação com a capital, o guitarrista se diz feliz em completar 50 anos no Rio de Janeiro, onde pode acompanhar de perto o Fluminense, time do coração, jogar a pelada de terça-feira, fazer música, desenvolver trabalhos com a mulher, que é designer gráfico, gravar e receber artistas em seu estúdio e fazer passeios de bicicleta contemplando a natureza da Cidade Maravilhosa. “Hoje sou um cara mais terreno. Estou aqui, eu piso [neste chão]. Para falar a verdade, o que eu quero para o futuro é pedalar. Quero viver pedalando.”

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