É hora de ajustar as contas

Ai, meu bolso! A alta generalizada dos preços tem feito “sobrar mês no fim do dinheiro”. Quem tem uma boa situação financeira em geral não vem sentido tanta mudança. O aumento da inflação e das taxas de juros, além da desaceleração da renda e do emprego, pesam, sobretudo, para a classe média e os mais pobres. Feira, luz, roupa, combustível, lazer, tudo ficou mais caro nos últimos meses. Quem se acostumou, no início dos anos 2010, a colocar os supérfluos no carrinho, equipar a casa, fazer compras no shopping e comer e beber mais fora de casa está se vendo forçado a rearrumar o orçamento – e, principalmente, mudar de mentalidade.

Como lembra o professor do Departamento de Economia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Carlos Magno Lopes, quem atravessou os anos 1980 e 1990, até o Plano Real, passou por um período difícil. A hiperinflação da época recaiu com força sobre os cidadãos de baixa renda, obrigados a reprimir demandas, desejos e sonhos de consumo. Depois a renda real subiu, a inflação estabilizou-se, as condições de crédito tornaram-se favoráveis. As pessoas, naturalmente, ficaram ansiosas para consumir.

“Isso moldou o tipo de consumidor brasileiro, pouco atento a essas mudanças conjunturais. O que está acontecendo agora é tentativa de se acomodar a uma nova realidade que deve durar ainda algum tempo. As pessoas estão mudando hábitos, refazendo planos”, complementa, lembrando também o problema da educação.

A reportagem foi para a rua ouvir o que as famílias têm feito para reequilibrar as contas. Além de muitas reclamações contra os preços altos e a dificuldade em pagar as dívidas, as pessoas contaram um pouco de suas últimas experiências (assista ao vídeo no final da matéria). “A estrutura toda mudou. A questão de não deixar a luz acessa, desligar e ligar o chuveiro. Hoje o brasileiro para querer viver melhorzinho tem que se enquadrar. O supérfluo já não entra mais, o presunto, a maionese, o molho rosê. Carne nem entra com tanta frequência lá em casa”, conta a aposentada Dulcilene Tavares.

“Eu trabalho, tenho meu salário fixo, mas estou também fazendo bico de manicure e cabeleireira para complementar a renda. O lazer foi diminuído e tenho comprado só o essencial”, diz a secretária Maria Betânia Silva. O pipoqueiro Ednaldo Severino, que deve cerca de R$ 1,2 mil, diz que está correndo atrás do dinheiro, mas “toco canto está ruim”.

“Gás e luz está um absurdo. É para cortar o coração. Não podemos cortar a comida, mas estamos diminuindo. O feijão está caro, no lugar da carne compro uma carninha moída, faço um omelete, as verduras saio comprando menos”.A tesourada chegou até na chapinha. “Hoje não tem mais como comprar roupa e sapato para deixar guardado. Trocamos tudo quanto era lâmpada por fluorescente, e a chapinha tem que controlar também”, relata Uran Tito Barbosa, autônomo.

Quando a economia entra em crise, o primeiro setor a sentir a retração da demanda é o de bens duráveis, de TV, geladeira, automóvel. Em seguida, o de bens não duráveis. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou, na semana passada, que, em março, as vendas de hipermercados, supermercados e produtos alimentícios recuaram 2,2% em relação a fevereiro e 2,4% na comparação com março de 2014. O último setor a se retrair – e em que a crise ainda não chegou com mais força – é o de serviços, como plano de saúde, mensalidade da escola, conserto do carro.

Na avaliação do educador e consultor financeiro e sócio da Dsop Educação Financeira em Pernambuco Arthur Lemos, é importante extrapolar um pouco o entendimento sobre o cenário. “A conjuntura que pressiona o orçamento das famílias na verdade expõe uma grande fragilidade que nós temos, inclusive uma fragilidade do modelo educacional. Nós não somos educados financeiramente.”

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