“A presidente Dilma terceirizou seu segundo mandato”, critica Frei Betto

Referência histórica do PT, Frei Betto refaz a análise de quando divulgou uma carta com os 13 motivos para votar na presidente Dilma Rousseff (PT). Cinco meses depois de assistir ao discurso da “pátria educadora”, perdeu as esperanças: “A presidente terceirizou seu segundo mandato”. Não se arrependeu do voto, mas não está engajado com essa gestão. Reconhece o Governo Federal está refém do que chamou de “troika Temer-Cunha-Calheiros”. A única saída, para ele, seria que o PT fizesse sua auto-crítica, sob a penalidade de perder o comando do País para a direita. Nesta entrevista, feita por e-mail ao JC, fala ainda da reforma política, do futuro do ex-presidente Lula e sobre o impeachment, levantado pela oposição. Frei Betto estará no Recife, dia 28 de maio, para participar do Fórum Mundial de Educação Profissional e Tecnológica, que acontece no Centro de Convenções. Sua palestra, cujo tema é ” Gestão democrática, participação social e desenvolvimento humano”, acontece às 18h. 

JC – Como o senhor avalia esse início do governo Dilma?

Frei Betto – Infelizmente a presidente Dilma terceirizou seu segundo mandato: entregou a economia aos banqueiros (Joaquim Mãos de Tesoura Levy) e a política ao PMDB. O ajuste fiscal prejudica os pobres e, em nada, afeta os privilégios dos mais ricos. Da Educação foram cortados 14 bilhões, malgrado o novo lema do governo… Não creio, pois, que haverá avanços significativos.

JC – Saímos de uma eleição acirrada, na qual o PT parecia sinalizar para um novo encontro com a esquerda. O novo mandato da presidente Dilma parece mostrar o contrário. Que futuro o senhor enxerga para o PT? Quais os mea-culpa necessários?

FB – O PT trocou um projeto de Brasil por um projeto de poder. Cometeu o grave erro de não apoiar sua governabilidade em seu principal reduto eleitoral: os movimentos sociais. Preferiu apoiá-la no mercado e no Congresso, malgrado os 300 picaretas… Resultado, ficou refém dessas alianças espúrias. Ainda assim, considero os governos Lula e Dilma os melhores de nossa história republicana, principalmente pela redução da miséria e maior inclusão econômica dos mais pobres. No entanto, o PT se equivocou ao não promover inclusão política. Ao contrário, despolitizou a nação, dando a impressão de que ser consumista é mais importante que ser cidadão. E, agora, a cobra morde o próprio rabo… Espero que em seu próximo congresso, em junho, o PT faça autocrítica e corrija seus rumos enquanto é tempo. Caso contrário a direita tomará o seu lugar no governo.

JC – Do ponto de vista do discurso, o PT lhe parece perdido? 

FB – Há de tudo no PT, desde aqueles que insistem em tapar o sol com a peneira e aprovam o ajuste fiscal penalizador dos mais pobres, até aqueles que admitem que lideranças do partido se envolveram em corrupção e insistem na volta aos vínculos prioritários com os movimentos sociais. O PT, ao surgir, tinha como capital político três grandes bandeiras: ser o partido dos pobres; ser o partido da ética; ser o partido que lutava por um socialismo à brasileira. Perdeu os três, infelizmente.

JC – Tendo em vista essa crise instalada no Congresso, o senhor acredita que a presidente está refém do PMDB?

FB – Sim, a troika Temer-Cunha-Calheiros se apoderou os rumos da política e a bancada governista está cada vez mais dividida e sem rumos. Precisamos sim de uma reforma política. Pena que Lula não a abraçou enquanto governou. Agora, reforma política com este Congresso é esperar que as raposas respeitem os direitos das galinhas…

JC – A oposição tenta inflamar o impeachment. Cabe falar disso nesse momento?

FB – Nem a oposição fala mais disso. Não há nenhuma base para levar adiante tal proposta absurda, nascida de corações ressentidos pela derrota eleitoral.

JC – O PT ainda tem na figura de Lula o seu mestre, uma prova é setores que colocam seu nome para a eleição de 2018. Porém, vemos um Lula bem menos combatido, com um discurso padrão (pobres x ricos), que faz comícios bem menos concorridos que outrora… Que leitura o senhor faz da força política de Lula hoje?

FB – O PT não tem outro candidato em 2018 fora do Lula. Ele só não será candidato se ocorrer a infelicidade de falecer antes. A questão é saber se terá apoio do PMDB. Desconfio de que não. Não tenho bola de cristal, não intuo que o PMDB apresentará candidato próprio à Presidência e com o apoio do PSB. 

JC – Em 2013, vimos a sociedade ganhar voz e vez em protestos por todo o Pais. Dois anos depois, em 2015, protestos tomam conta do Pais, com bandeiras nacionalistas, contra a corrupção, e claramente contra o PT. Quais diferenças o senhor faz entre esses dois momentos?

FB – O Brasil se encontra em depressão cívica e em crise de representação política. Não há muito diferença entre uma e outra manifestações. Como o PT encarna o governo central, ele é o principal alvo dos protestos. 

JC – Em 2015, vemos novamente o debate da reforma política emergir, através do trabalho de uma Comissão na Câmara Federal. Ela vem com cara conservadora, instituindo o “distritão” e o financiamento misto de campanha. Que riscos essa reforma pode trazer para o Brasil?

FB – Com este Congresso não tenho a menor esperança de uma reforma política minimamente decente. Basta dizer que os senadores querem ampliar seus mandatos de oito para 10 anos! Reforma política sem Constituinte Exclusiva é balela… Por isso há que pressionar a classe política, lembrando o que aprendi em dois anos de Planalto e descrevo em meus livros “A Mosca Azul” e “Calendário do Poder” (ambos da editora Rocco): governo é que nem feijão, só funciona na panela de pressão!

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